Setenta Anos
A Wedna, uma das minhas irmãs,
disse uma vez “essa música que você gosta de tanto cantar tem a ver com a
Maria”, eu, confesso, achei estranho, pois jamais tinha entendido assim. À
noite, em casa, sozinho, fiquei a ruminar; a música em questão é SOU EU do Ney
Lopes e Moacir Santos, contida no CD da Virginia Rodrigues e cantada pelo
Tiganá Santana.
Hoje, 17 de junho, a Maria, agora
espirito de luz, faria 70 anos. Tomei um susto, quando a ilação 1950 e agora
2020, ano surreal, impôs a aritmética, sim, contando os janeiros dá 70. Uma
cambulhada de lembranças passou lotadas pelo meu imaginário, foram tão rápidas
e intensas que o mutismo me açambarcou por inteiro, não deixei, porém, de
saborear o momento.
Contar ou rememorar o passado, esse
passado quase ontem, esse que, às vezes, parece, presente; não é pra aprendizes;
fiotes tentam, ousam, mas é uma temeridade.
É o que estou tentando fazer,
meio perdido e, quase sempre, inseguro.
Maria e eu, desde que a vi pela
primeira vez, em qualquer mês de 1966; encontro deveras ao acaso como, segundo
o Caymmi, o acaso é importante na vida e, numa digressão minha, dual. Esse fortuito
retrato da vida nos fez ficarmos juntos de 1967 até outubro 2016, termos filhos
e netos. Maria conheceu o Joaquim, filho da Clelia e Wado e a Helena, filha da
Lahys e Wenderson. O Bento, que chegou em plena pandemia, filho do Thomazo Monnyck,
Maria já era um espirito de luz.
Desde outubro de 2016, quando a
vida impôs as “nuances” da existência, vivo sozinho no apto 603 do São Tomé, sozinho
é verdade, mas jamais solitário. Às vezes, quando as falsetas naturais do dia a
dia ameaçam grilar minha alma, eu, intimorato, dou um soslaio de socorro para
cristaleira da sala aonde está a Fada Azul, e uma paz azulada, mansamente, me
açambarca.
Hoje, dia 17 de junho de 2020, degredado
dos meus filhos e netos, surfo no imaginário dos sonhos felizes para brindar “Parabéns
Maria”.
17 junho 2020
Tonico


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